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NFTs depois do hype: um mercado em amadurecimento
Publicado em 15/09/2021

Para além do ruído gerado há alguns meses, as oportunidades dessas certificações digitais para a música se multiplicam, dizem especialistas

Por Isaque Criscuolo, de São Paulo

Se você vive no planeta Terra, certamente foi bombardeado pelo tema NFTs há alguns meses. De fevereiro a abril, o assunto invadiu os noticiários, esquentou o mercado criativo e abriu as portas para novas possibilidades tecnológicas — não só no mundo da música, mas da arte, dos games e até esportes —, antes de aparentemente desaparecer numa nuvem de fumaça. Mas só aparentemente.

Refrescando a memória: um NFT (non-fungible token/token não fungível) é uma tecnologia que permite a criação de assinaturas digitais únicas, certificados de autenticidade de uma imagem, uma obra, um gif, enfim, qualquer arquivo digital.

No mundo musical, surgiram plataformas que certificam composições com NFTs, como a Phonogram.me, ampliando o leque de fontes de receita para artistas, produtores fonográficos e editoras. Artistas de várias áreas anunciaram lucros enormes, da noite para o dia, com a geração desses certificados. Mas ainda existem muitas dúvidas e descrenças em relação a como NFTs podem ser revolucionários para músicos ou, para os mais céticos, como podem ser um pouco mais palpáveis e menos teóricos.

Bianca Pattoli é fundadora ao lado de Lalai Persson na Menta Land, estúdio criativo para projetos de NFTs relacionados a arte ou ações de marketing no universo blockchain (sistema de transações em cadeia, inviolável, com criptomoedas). Ela diz que, com o hype em torno de NFTs, muitas pessoas acreditaram que ficariam ricas de uma hora para outra. Embora alguns artistas realmente tenham conseguido vender tokens por altos valores, esta não é a regra. "No aspecto tecnológico, o mercado de NFTs está amadurecendo, e muitas plataformas que negociam os tokens ainda estão surgindo", explica.

Parte deste amadurecimento, de acordo com a especialista, tem a ver com as possibilidades de aliar tecnologia com a relação entre artistas e suas comunidades:

"Imagine que um artista transforma sua música em NFT, dividindo em pequenas partes como uma ação da bolsa. O fã ou quem compra este token passa a receber uma parte do lucro pelo desempenho da obra. Neste caso, é como uma sociedade, e NFTs se tornam assets. Esta é uma nova maneira de enxergar a tecnologia", diz.

Outra possibilidade é utilizar NFTs para criar sistemas de votação numa base de fãs, pois a tecnologia permite a checagem de veracidade dos dados ou para emissão de ingressos de shows. Além disso, podem ser utilizados para emitir certificados oficiais de fã-clubes e criar novas formas de merchandising. "O artista pode criar uma série numerada de merchandising, de produtos oficiais com um certificado. Isso certamente tem bastante valor para o fã", diz Bianca. 

Para quem quer continuar de olho neste mercado e como seguirá avançando, Luiz Octávio, CEO e fundador da Dux Cripto, explica que é importante acompanhar e entender o universo de criptomoedas como Ethereum e Bitcoin.

"O mercado de NFT surgiu do mercado cripto e, embora esteja tomando um caminho independente, ainda estarão correlacionados. É legal que os artistas olhem para o mercado cripto como referência, mas para ver as inovações, afinal é onde tudo está acontecendo primeiro. As chances são grandes de que algo novo aconteça no lado dos investimentos cripto", explica.

Oriunda do mundo das criptomoedas — empreendedora jovem, fundadora da Moeda Seeds, uma startup financeira brasileira baseada em blockchain e destaque em publicações como a edição internacional da revista "Forbes" —, Taynah Reis também é cantora e compositora. Há alguns meses, ela criou o All Be Tuned, um aplicativo para artistas independentes gerarem NFTs e se financiarem em meio à grave crise do mercado musical derivada da pandemia. Foi a primeira a emitir certificados no app, todos ligados a uma canção sua. 

Para a composição "Tudo Bem", foram disponibilizados 100 NFTs a US$ 333 cada um. Os certificados incluem a representação de 0,08% dos direitos de distribuição e publicação da música para cada comprador. Além disso, 30% da receita originada com as vendas foram destinados a projetos sociais e ambientais da Moeda Seeds. Foi um sucesso.

"O All Be Tuned foi a oportunidade que encontramos para democratizar a relação do artista com a sua própria arte, já que ele passa a ter o controle do que produz. Também pode gerar, mesmo em tempos de incerteza, mais receita ", disse Taynah à revista "Exame".

Lá fora, um caso concreto com potencial de multiplicação na indústria da música levanta um debate que alcança até mesmo o futuro das relações dos artistas com as gravadoras e as plataformas de streaming. A banda Kings of Leon colocou à venda, em março passado, na criptomoeda Ethereum, uma cópia do seu último álbum, uma obra de arte e um disco de ouro, além de erros de gravação da banda pelo equivalente a US$ 50. O pacote esteve à venda por duas semanas — foram vendidas 6.500 certificações, arrecadando um total de US$ 2,2 milhões para a banda. US$ 600 mil desse total vieram da venda de seis NFTs ainda mais especiais, que incluíram um golden ticket, ou acesso vitalício, a um show da banda por turnê, com direito a motorista para buscar o fã em casa. 

Essa movimentação rápida de dinheiro "por fora do sistema" normal levou Nathan Followill, baterista do Kings of Leon, a sentenciar:

"Os acordos com gravadoras perderam seu valor, de certa forma. Hoje em dia, uma criança pode fazer um disco no GarageBand e lançar no TikTok, acompanhado de um NFT. É como se não fosse mais preciso depender da indústria fonográfica tanto quanto antes, o que, por sua vez, acredito estar deixando essa indústria em pânico.”

Analistas se apressaram em desmentir a ideia. Afinal, o Kings of Leon só pôde captar todo esse dinheiro por ser uma banda conhecida e com uma longa carreira beneficiada pelos sistemas tradicionais de gravação com um selo, distribuição em plataformas como Spotify ou Apple Music e estratégias de marketing e divulgação tradicionais. Mesmo assim, as provocações do músico americano parecem mostrar que os NFTs podem levar a indústria a um novo (e, ao mesmo tempo, conhecido) terreno. "É como voltar, num certo sentido, à era do Napster, com a onipresença e a facilidade da distribuição pela internet, mas agora com a proteção dos direitos autorais", resumiu o jornalista e analista Michael de Castillo à "Forbes".

As possibilidades das NFTs são grandes e continuam a se espalhar.

"Esta é uma tecnologia que veio para ficar, e muita gente está tentando desvendar o que fazer, como usar. Não existe um só uso que vale pra todo mundo. É preciso ser criativo", resume Bianca.

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