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Coletivo de trap brasileiro Recayd Mob aposta em tecnologia spatial audio
Publicado em 25/08/2021

Considerado o próximo passo para o consumo de canções, método permite gravação em dezenas de canais

Por Isaque Criscolo, de São Paulo

Fotos: Rudd (primeira página do site) e Jef Delgado (abaixo)

O som nos rodea desde que habitamos este planeta. Na selva, dentro de cavernas, nas catedrais, nas salas de concertos e shows ou nos mais modernos fones de ouvido surround, usamos estruturas físicas e a tecnologia ao nosso alcance para melhorar a apreciação das ondas sonoras. Desde os anos 1950, com a chegada da tecnologia estéreo ao público em geral, a corrida por aperfeiçoar e oferecer uma experiência de escuta musical mais rica não se detém — e está prestes a ganhar um novo marco. 

O próximo passo tecnológico para o consumo de canções se chama spatial audio, uma tecnologia de som surround virtual que simula multicanais em fones e sistemas de som domésticos. É a mesma tecnologia aplicada no Dolby Atmos Music, 360 Reality Audio e THX Spatial Audio, proporcionando experiências sonoras descritas como extremamente imersivas e sensoriais.

Em vez dos dois canais do estéreo, as canções são gravadas em dezenas deles, o que deriva em son com texturas incomparavelmente mais complexas, que parecem vir de todos os lados, criando um efeito 360 graus. Serviços de streaming como a Apple Music e Spotify já oferecem a tecnologia em canções selecionadas. E o coletivo Recayb Mob, principal dedicado ao trap no Brasil, o usou na gravação do seu novo single, “Bonde da Fumaça”, parceria com o produtor canadense Murda Beatz. 

Murda é referência no trap e responsável por singles de artistas renomados como Travis Scott, Migos, Nicki Minaj e Gucci Mane. 

Acompanhada de videoclipe, esta é a segunda faixa divulgada do próximo álbum, “Calzone Tapes 3”, com formação de Derek, Jé Santiago, Dfideliz e MC Igu.

VEJA MAIS: O clipe de "Bonde da Fumaça"

Beto Neves, responsável pela mixagem na tecnologia Dolby Atmos do single, acredita que o maior desafio da criação de áudio espacial é não afastar demais o resultado daquele ao qual já estamos acostumados: o áudio mixado em estéreo com dois canais. 

"Todos nós crescemos ouvindo música dessa forma, e o áudio imersivo traz muitas possibilidades, até mais completas. Se utilizado de uma forma exacerbada em um primeiro momento, pode trazer uma estranheza para o ouvinte. Então, o maior desafio é adaptar esse formato à audição das pessoas", diz. 

Em relação a quem ouve esse tipo de conteúdo, os benefícios estão na possibilidade de distribuição de som muito maior do que com o estéreo e num espectro de frequência com muito mais detalhes. É o que defende Beto Neves. 

"Nesse primeiro momento, as pessoas estão ouvindo na sua menor renderização, que é o fone de ouvido. Porém, em alguns anos, todo mundo vai utilizar e ter acesso a dispositivos que vão trazer a imersão, não só os fones de ouvido. Vai ser muito mais interessante", afirma Neves.

Ele cita, por exemplo, os soundbars, ou dispositivos imersivos sem a necessidade de fones e que distribuem a música através de pontos fixos e caixas de som. Também lembra que carros e computadores já estão sendo lançados com caixas de som imersivas. "Ainda é uma construção de uma tecnologia, um início, mas deverá prevalecer na produção musical a produção para áudio em multicanal, e não mais com dois canais, como era em estéreo", complementa. 

Sobre a parceria com o produtor murda Beatz, Derek, um dos integrantes do coletivo, conta que foram três meses de negociações.

"Ele topou e nos mandou mais de 15 beats para escolhermos, e esse, que vocês já podem ouvir, foi unânime. Para nós é uma realização, porque ele é um dos responsáveis pelo auge da cena trap no mundo, e poder produzir com alguém que esteve com Travis Scott e Migos é incrível. Estamos felizes e esperamos que a galera ouça muito também", diz.

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Para Dfideliz, esta parceria é um passo importante na trajetória de um grupo que milita num gênero ainda não tão difundido no país:

"É a prova de que estamos sendo vistos também. O trap ainda é muito recente. Quando começamos, não tínhamos referências nacionais. Mas também começamos como uma celebração, já vivíamos no ambiente do hip hop e do rap, eu vim desse lugar. E o trap é o irmão mais novo do rap, que tem atingindo a galera jovem."

Ele afirma que o óbvio plano, quando a pandemia permitir, é apresentar o álbum ao vivo, a melhor maneira de apreciação dos sons do trap e de qualquer outro gênero. Enquanto isso, convida os ouvintes com acesso às plataformas de streaming que já oferecem o spatial audio a imergir na música — e pensar na volta à normalidade.

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