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Amaro Freitas e Jonathan Ferr: ancestralidade negra ao piano
Publicado em 19/08/2021

Expoentes do novo jazz brasileiro lançam trabalhos que reivindicam suas raízes e o caráter popular do gênero

Por Kamille Viola, do Rio

Jonathan Ferr e Amaro Freitas. Fotos: Renan Oliveira e Jão Vicente, respectivamente

Sankofa é um símbolo Adinkra — conjunto de ideogramas dos povos acã, da África Ocidental —, que representa um pássaro com a cabeça voltada para trás. Seu significado é: “Retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”. O conceito, há tempos adotado e difundido pelos movimentos negros brasileiros, também vai ao encontro de dois grandes expoentes do jazz nacional atual: o recifense Amaro Freitas e o carioca Jonathan Ferr. Em um país que não costuma valorizar seus pianistas negros — Sinhô, Moacir Santos e Johnny Alf são alguns exemplos menos celebrados por aqui do que deveriam —, eles vêm escrevendo novas histórias, com trajetórias celebradas e cheias de personalidade.

Nascidos em regiões periféricas de suas cidades, ambos lançaram novos trabalhos recentemente. Freitas soltou justamente “Sankofa”, seu terceiro álbum; e Ferr, “Cura”, seu segundo. Em comum, o desejo de popularizar o jazz e a reverência à cultura negra, na qual procuram inspiração para a música que fazem. Em suas roupas, no corte de seus cabelos e, sobretudo, nas influências de suas músicas, eles não nos deixam esquecer: o jazz é negro.

No caso de Amaro Freitas, o resultado dessa busca é o encontro do jazz com ritmos nordestinos como o frevo e o jazz.

“Para além de uma busca, se trata de uma conexão, do espaço que eu ocupo, o que me compõe, o meu lugar de fala. A cultura afro e indígena, tanto como a história desses dois povos, deveria ser recriada com a verdadeira história e grandeza desses povos, principalmente nos livros infantis. Nessa fase adulta, quando me deparo com tudo aquilo que me foi negado e começo a perceber a grandeza do meu povo, dos meus ancestrais do meu passado, cai a ficha de que esse é um projeto do Brasil para querer colocar as pessoas em caixinhas dizendo que aquele é o lugar delas”, explica o pianista.

Ele cita como exemplo o próprio jazz no Brasil, que, assim como a história do país em geral, não deu o crédito aos nossos heróis negros. “Eu me fortaleço quando vejo a genialidade do Johnny Alf, mas fico decepcionado quando leio, em livros da história da bossa nova, que ele é tido como pré-bossa, quando o próprio Jobim falou que o Johnny influenciou tanto ele como o Vinicius. É muito triste saber que o Johnny viveu seus últimos dias tocando nos clubes do Rio e São Paulo e tendo que vender coisas da sua casa para poder sobreviver. A importância que eu vejo em ter um trabalho instrumental, em ser um homem preto, nordestino e da periferia, é justamente o poder do resgate da autoestima para dizer para os meus irmãos: ‘Lutem, lutem, esse não é o nosso lugar. Nossos ventos vêm de muito longe, e eles são potentes e grandiosos”, conta Amaro.

“Sankofa”, produzido por Amaro, traz Hugo Medeiros na bateria e percussão, além de Jean Elton no contrabaixo. O disco tem oito faixas, entre elas “Baquaqua”, inspirada no africano Mahommah Gardo Baquaqua, que foi trazido para o Brasil escravizado, fugiu para Nova York em 1847, onde aprendeu a ler e escrever e deixou uma autobiografia; “Vila Bela”, que leva o nome de uma região próxima à fronteira com a Bolívia, no Mato Grosso, onde  Tereza de Benguela liderou um quilombo no século 18; “Ayeye”, que significa celebração em iorubá, e “Cazumbá”, batizada em homenagem à tradição do boi no Maranhão. A música-título ganhou clipe.

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Já Jonathan Ferr promove o encontro do jazz com estilos como o R&B e hip hop, daí o título de urban jazz para o gênero com o qual ele se identifica.

“Para mim, o mais importante é o artista estar alinhado com a sua verdade. Eu sempre ouvi rap e R&B, paralelamente, enquanto ouvia jazz. Quero dizer, esses ritmos sempre foram fluidos na minha caminhada. Quando iniciei a minha carreira artística, foi natural encontrar nesses dois caminhos uma sonoridade que se parecesse comigo, um pianista preto, carioca, oriundo do subúrbio. Então, acredito que os artistas que têm se proposto a buscar esse caminho têm histórias muito parecidas com a minha; o que torna o urban jazz, o jazz hop, o rap jazz ou qualquer gênero oriundo dessas misturas algo bastante relevante e verdadeiro”, analisa Ferr.

“Cura” conta com nove faixas, com participações de artistas como Serjão Loroza, Jaques Morelembaum e Vivi Mosé. E chega com uma websérie no YouTube envelopada em estética afrofuturista.

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Para ambos, é importante que sua música atinja um público o mais diversificado possível, que todos tenham acesso a ela. “Eu sinto que o jazz ainda é visto como uma música pouco acessível, direcionada a um grupo específico de pessoas. Por muito tempo, ele foi colocado numa categoria elitista, como se você tivesse que ter muito conhecimento para compreender as dimensões dessa música. O jazz por aqui se tornou uma música de butique, e é isso que eu busco mudar. E o caminho que escolhi foi fazer uma música simples, para conectar o máximo de pessoas”, explica Jonathan Ferr.

Os diferentes estilos da música popular, sobretudo nas Américas, surgiram do povo e acabaram sofrendo apropriações pelas camadas mais elitizadas, fazendo com que elas lucrassem e os verdadeiros inventores fossem esquecidos. Com o jazz não foi diferente, como observa Amaro Freitas.

“O jazz vem do povo, como o frevo, o samba e tantos outros gêneros. Quando observamos o Movimento Armorial, por exemplo, percebemos que, para além da manutenção de uma cultura, temos a apropriação dela. Pensar que o artesão não é reverenciado, mas sim o acadêmico que se apropriou da arte do artesão, e o artista acadêmico que se apropriou dos cantos populares e levou esse trabalho para o teatro, ao qual boa parte do próprio povo não tem acesso…”, observa o pianista, citando o famoso movimento pernambucano. “Temos um grande problema que já vem de muito tempo. Quanto mais conscientes estivermos do nosso papel e do quanto é importante contar a verdadeira história, aí, sim, podemos ir diminuindo e resgatando os créditos para os verdadeiros criadores”, frisa.

DOIS VIVAS A MILTON

E, por falar em ancestralidade negra, os dois álbuns trazem uma coincidência: cada um tem uma faixa dedicada a Milton Nascimento. Amaro havia participado de duas músicas do EP “Existe Amor”, de Milton Nascimento e Criolo, lançado em maio do ano passado: “Cais” e “Não Existe Amor em SP”. Foi natural que esse encontro inspirasse uma homenagem ao mestre, batizada de “Nascimento”.

“Milton é a força da natureza, a grandeza e beleza do nosso país. Milton é esperança, ele é o melhor de nós. Nos ensina que criar pontes é melhor que construir muros”, resume Amaro Freitas.

Já Jonathan Ferr compôs seu tributo, também chamado “Nascimento”, após receber o convite para ser um dos artistas a se apresentarem no Prêmio UBC em homenagem a Milton, em 2019, e receber a proposta de criar uma música para ele.

“O nome é uma homenagem a ele e a todas as obras que ele gerou”, diz. “Tenho recebido muitas mensagens emocionadas sobre pessoas tocadas por essa música, e isso me deixa muito feliz. O Milton é um patrimônio de nosso país, e eu sou muito grato por ser contemporâneo dele. Para mim, é um dos arquitetos da música brasileira. É impossível falar de cultura brasileira sem falar em Milton”, elogia.

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