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Portugal, Brasil e uma ponte musical que cresce
Publicado em 15/06/2022

Encontro em SP reúne Zeca Baleiro, Sérgio Godinho e Filipe Raposo para uma conversa sobre um mar de coisas que nos unem

Por Alessandro Soler, de São Paulo

Sérgio Godinho, Filipe Raposo e Zeca Baleiro durante o papo no Consulado Geral de Portugal em São Paulo. Foto: Alessandro Soler

Uma língua rica e pluralíssima nos mantém unidos para sempre, mas, na música, ainda falta uma "ponte Vasco da Gama" a nos conectar. Como a majestosa construção de mais de 12 quilômetros que atravessa o estuário do Tejo, em Lisboa, iniciativas crescentes de criadores musicais dos dois lados do Atlântico vão tecendo novas redes, novas parcerias. Isso ficou claro num encontro especial promovido nesta terça-feira (14) pelo Consulado Geral de Portugal em São Paulo, que provocou uma interessante discussão entre dois grandes criadores portugueses e um brasileiro sobre o que quer e o que pode, no âmbito da canção, essa língua que compartilhamos. 

Sérgio Godinho, um dos cantautores mais celebrados em Portugal — e ainda pouco conhecido no Brasil —, relembrou cocriações célebres com o associado da UBC Zeca Baleiro e o também compositor e músico instrumental luso Filipe Raposo. Os três e mais a São Paulo Big Band colocarão em prática essa união nesta quarta (15), às 19h30, numa apresentação musical no Teatro B32 que, entre outros repertórios, deve visitar a música popular portuguesa, um gênero quase ignorado por aqui e equivalente à MPB em estilo e lirismo de suas letras. Foi cantando e relendo esse gênero, do qual Godinho é um dos mestres, que Baleiro ganhou o Grammy Latino de melhor álbum de MPB ano passado, pelo disco "Canções d'Além Mar". 

O papo começou com Godinho evocando seu primeiro encontro com o artista maranhense.

"Foi há alguns anos, durante um concerto seu em Salvador. Fui falar com ele, me apresentei, imaginava que não me conhecia, e já lhe propus uma parceria. Fiquei encantado com a qualidade cênica do Zeca, mas sobretudo com a enorme qualidade de escrita."

O brasileiro, antenado com a produção contemporânea portuguesa para além do novo fado ou de ícones da fusão de gêneros como a banda Madredeus, rapidamente o corrigiu.

"Eu já conhecia o Sérgio, sim. E havia muitos anos. Tenho duas amigas muito queridas que são brasileiras de origem portuguesa. Elas me presentearam, ainda no final dos anos 80, com cassetes da produção portuguesa daquele momento. Além do Sérgio, tinha uma porção de coisas de outros monstros da música popular portuguesa, como o Fausto (Bordalo Dias). Infelizmente, não é comum que aqui no Brasil se conheça essa geração. É um grande vazio."

Desse encontro na Bahia surgiu o convite, por Godinho, para Zeca Baleiro fazer seu primeiro megashow em Portugal, numa festa anual promovida pelo Partido Comunista daquele país que reuniu quase 50 mil pessoas. "Eu já tinha tocado em festivais pequenos, mas aquilo foi muito maior, grandioso. E me abriu as portas para um mercado, o português, com o qual felizmente ainda tenho muita ligação hoje em dia", continuou Zeca Baleiro. 

A facilidade com que os portugueses nos recebem, aliás, foi destacada por eles durante a conversa. Habituados à fala brasileira — principalmente por meio das telenovelas, fenômenos de audiência na TV lusa desde "Gabriela", nos anos 1970 —, os cidadãos de lá abraçaram também a nossa música.

"Falta o movimento contrário. Creio que há uma certa dificuldade de o brasileiro entender nossa pronúncia. É muito perceptível, senti isso várias vezes aqui no Brasil, um país com o qual tenho uma relação verdadeiramente afetiva", explicou Godinho. 

"Diferentemente da maioria dos brasileiros, que quase sempre têm um avô ou uma avó portugueses, eu tive uma avó brasileira (risos). Em casa sempre comemos com farofa, cresci imerso em referências do Brasil. Estive cá muitas vezes desde os anos 70, cheguei inclusive a ser preso (pela ditadura) em Ouro Preto", contou o cantautor, ícone da chamada música de intervenção, o que aqui no Brasil se costuma denominar música de protesto.

Ele relembrou anedotas daquele tempo que o emocionam. "Como minha fotografia saía muito no jornal naquele momento, por conta da minha prisão, fiquei relativamente conhecido no Brasil. Ao ser solto, pessoas me abordavam na rua para se desculpar. Aquilo me comoveu muito, é algo que não acontecia em Portugal, esse sentido de responsabilidade coletiva pela ação do Estado..."

Diferenças e semelhanças culturais também marcaram a fala de Filipe Raposo, que é compositor instrumental e toca piano durante sessões de cinema mudo promovidas pela Cinemateca Portuguesa, em Lisboa. Inquieto e plural, tem pesquisas ligadas a áreas tão variadas como a pintura rupestre — traduzida em acordes — e a presença sefardita na Península Ibérica. 

"A ponte cultural é possível, e o deslocamento a propicia. Os sefarditas, ao serem expulsos da Península, foram pelo mundo, e acabaram depois trazendo essas referências de volta à Península. Da mesma forma, os imigrantes que vêm de África e do Brasil ajudam a criar novas cenas na música portuguesa, uma criação transversal que a enriquece muito", descreveu o artista, parceiro de Godinho na trilha sonora do filme português "Refrigerantes e Canções de Amor" (2016) e em outros trabalhos.

Os cruzamentos e as parcerias entre nomes de lá e de cá, para os artistas, são mesmo uma forma efetiva de estreitar laços. Nos últimos anos, de fato, cocriações e/ou encontros entre Caetano Veloso e Pedro Abrunhosa; Kátia Guerreiro e Maria Bethânia; Eugenia Melo e Castro e Ney Matogrosso; Gilberto Gil e Maria João; Sérgio Godinho e Caetano Veloso; e Carminho e Marisa Monte exploraram a riqueza dos nossos respectivos vocabulários e a beleza dos diferentes sotaques da língua comum. Uma tarefa pendente, como todos concordaram, é visitar a nova criação dos países africanos de língua portuguesa, cuja conexão com o Brasil é óbvia mas cujo aporte contemporâneo à música do nosso país ainda é relativamente pequeno.

Para que essa rica criação chegue até nós, brasileiros, "falta educar mais o ouvido e a curiosidade", provocou Godinho. "Eu, há uns anos, deixava o meu cachê das turnês portuguesas na Fnac de Lisboa, comprando discos de música popular portuguesa e de música africana lusófona (risos). Hoje, tudo isso está ao alcance de um clique", completou Baleiro, que tem contribuído com a difusão da produção lusa por aqui não só através do lançamento de discos como "Canções d'Além Mar": 

"Falo nas lives que eu faço, converso com as pessoas... Uma vez, cantando canções do Sérgio numa live, um comentarista brasileiro disse 'muito bom esse Sérgio! É uma espécie de Edu Lobo português, não?'. Eu respondi na hora: 'se calhar, Edu Lobo é uma espécie de Sérgio Godinho brasileiro'", divertiu-se o maranhense, que não escapa, ele mesmo, das comparações: "Em outra ocasião, eu estava falando sobre a ótima banda Xutos & Pontapés com alguém daqui que não os conhecia. Fui explicar, a pessoa não entendia. Aí tive que apelar: 'eles são uma espécie de Titãs de Portugal' (risos). Pronto, assim deu para entender."

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