No

cias

Notícias

Zélia Duncan, 40 anos de carreira: novo álbum na velha casa
Publicado em 11/08/2021

Por Kamille Viola, do Rio

A cantora e compositora em casa. Reflexões sobre a vida e o estranho momento atual. Foto: Denise Andrade

 

Zélia Duncan se sentou na frente do celular, porque iria fazer uma live de bate-papo com a atriz Bruna Linzmeyer. Estava num momento especialmente difícil durante a pandemia. Tinha papel e lápis na sua frente (sempre tem) e começou a escrever: “Tô pelespírito/ tô por um fio dessa minha blusa…”. O texto acabou virando a letra de “Pelespírito”, que batiza o mais recente álbum da artista. O trabalho marca os 40 anos de carreira da cantora e compositora e sua volta à Universal Music.

A letra foi feita “num espasmo, de uma vez”, conta Zélia. Tudo o que ela escrevia era exatamente o que estava sentido. E foi escolhida para abrir o disco justamente por dar o tom do álbum, quase todo composto durante a pandemia ao lado do cantor e compositor pernambucano Juliano Holanda, parceiro da artista em todas as 15 faixas.

Zélia conheceu Holanda, nome central na cena musical contemporânea pernambucana, por meio de um conterrâneo dele, o cantor e compositor Almério. A cantora já havia gravado uma canção de Holanda, “O Que Mereço”, no álbum “Tudo É Um” (2019). Mas os dois acabaram se aproximando muito durante a pandemia e compuseram — à distância — muito mais que as 15 músicas do álbum.

Para ela, o encontro musical deu certo por existir, antes de mais nada, uma disponibilidade interna.

“A resposta que um deu ao outro, com interesse, com agilidade, com urgência emocional. Nos ajudamos a passar por esses meses. Juliano é um poeta, um homem doce, sabe ouvir e se chegar. Nos tornamos amigos e ainda fizemos tantas filhas-canções que ficamos inseparáveis.”

Ela, Holanda e o baiano Webster Santos assinam a produção do trabalho. “Pelespírito” foi todo feito à distância: Zélia e Webster Santos gravaram em suas respectivas casas, em São Paulo; Juliano Holanda, em Recife; Léo Brandão, em Curitiba; Christiaan Oyens, em Londres, e Ézio Filho, no Rio de Janeiro. O disco passeia por folk, country, sertanejo, rock e blues.

A tristeza com a atual situação do Brasil foi inspiração para o álbum, assim como as questões pessoais. “Onde É Que Isso Vai Dar?”, lançada como single antes do disco, e “O Que Se Perdeu?” são diálogos dela com Juliano. “Nossas Coisinhas” foi feita para Flavia Soares, sua companheira, que assina a direção de arte da capa. “Sua Cara” é para o pai da artista, Antônio Moreira, que morreu em dezembro de 2020. “Raio de Neon” foi a única feita poucos dias antes de o isolamento ser decretado no Brasil, mas já traz uma tristeza pelo clima geral do país. “Eu e Vocês” fala da saudade que ela sente do público. “Vai Melhorar” fecha o disco com a esperança de dias melhores.

Zélia vem compondo em profusão desde o início da pandemia, ao lado de nomes como Ana Costa, Xande de Pilares, Lucina, Marcos Valle, Ivan Lins e Leoni, além de Juliano Holanda. Para ela, esse movimento foi muito importante.

“Bem mais do que uma ajuda, foi um socorro, um consolo, diante de tantos mistérios e lutos variados, pois até da nossa profissão tivemos que de certa maneira nos despedir. Estar longe do público maltrata o artista.”

"Pelespírito" é um disco repleto de sentido político. Zélia frequentemente manifesta seus posicionamentos — por exemplo, em vídeos postados nas suas redes sociais sob a hashtag #ZoioNoZoio. Ela defende que não dá para se isentar em períodos duros. “Acho que, em alguns momentos, não se expor um tanto nos torna vazios em qualquer outro assunto. Como posso falar de saudade, se não falar de quantos brasileiros morreram por negligência? Tem aí meu temperamento, mas acho que todos, dentro do que são, devem se manifestar. É o que espero dos artistas/colegas que admiro”, diz.

Com a estrutura que montou em casa para suas lives. Numa delas lhe ocorreu o germe do novo disco. Foto: Flavia Soares

A artista, que idealizou ao lado de Ana Costa o álbum feminista “Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz” (2019), compôs “Você Rainha” para as mulheres que acabaram confinadas com seus agressores durante o período de distanciamento social: para as que conseguiram pedir ajuda, para as que não conseguiram e também para as que foram assassinadas. Apesar de ainda haver muito chão pela frente, ela acredita que as mulheres só vão avançar.

“A consciência foi nos dando mais coragem. A consciência da nossa força, da nossa importância em todos os setores da vida, é a força para dar passos mais ousados, em direção ao tal empoderamento. Donas de nossas atitudes, assumimos o papel que sempre foi nosso. É um caminho sem volta.”

“Pelespírito”, vai ganhar edição em vinil, assim como o álbum “Sortimento”, que completa duas décadas de lançamento. Aos 56 anos, a cantora e compositora que começou na vida artística assinando Zélia Cristina se surpreende com a velocidade do tempo ao olhar para sua carreira. “Penso que passou muito rápido e que nem sei mais quantas coisas eu fiz. Mas que sim, tenho outras a fazer, sempre tem coisas a serem feitas, vou descobrindo e me aventurando”, resume.

LEIA MAIS: Zélia e outras craques da composição falam sobre carreira e criação musical no especial de 10 anos da Revista UBC

LEIA MAIS: Carlinhos Brown, sobre a criação durante a pandemia: “acredito no poder do foco”

LEIA MAIS: Bebel Gilberto: “eu acho que criei uma marca, um nome, um som”


 

 



Voltar